Qualquer dia temos de arranjar um governo de frades franciscanos com voto de pobreza.
Miguel Sousa Tavares não tem dúvidas de que a polémica em torno de Luís Neves está longe do fim, mesmo depois de uma conferência de imprensa que serviu para explicar umas coisas “bem” e outras nem por isso. “Isto vai continuar, como é óbvio, indefinidamente”, avisa o comentador da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal).
No seu espaço de comentário habitual, “5.ª Coluna”, Sousa Tavares não deixa passar em branco a demora do ministro da Administração Interna em prestar esclarecimentos ao público, depois de o governante se ter remetido ao silêncio durante quase três semanas.
Essa parte, diz, “não lhe correu bem” e “não se percebe”, tendo em conta que a ausência de declarações “foi prejudicial para ele e para o Governo”. E se foi uma ideia do próprio Executivo, “então foi um autêntico disparate”.
Outras duas questões ficaram por explicar “convincentemente”, afirma o comentador, antes de elencar aquilo que Luís Neves conseguiu esclarecer com sucesso.
“É inaceitável” que o ministro diga que “não sabia” que tinha de entregar as declarações de rendimentos e patrimoniais, explica. “A resposta de que não sabia que era necessário, de alguém que é jurista, e com os cinco elementos da direção a dizer que não sabiam, é um bocado estranha”, sublinha, embora considere que o argumento da morada faz “todo o sentido”, referindo-se ao facto de a declaração exigir a morada do titular. Luís Neves emitiu na altura um parecer junto da Entidade para a Transparência (EpT) de forma a que não tivesse de fornecer informações com esse caráter pessoal, ainda que isso só tenha acontecido seis anos depois de assumir o cargo.
“As declarações deviam ficar na EpT e quando ele abandona funções a entidade verificava se houve ou não aumento do património, mas não é para ser publicado, porque aquilo é uma autêntica devassa financeira. Imagina que os ladrões andam à procura de pessoas com património, veem uma declaração destas, sabem onde é que a pessoa mora, vão lá e assaltam a casa. Mas não é só isso, a pessoa não tem de se expor perante os amigos, inimigos e vizinhos. Acho isto uma devassa sem justificação”, continua.
Mesmo com o próprio ministro a admitir que talvez devesse ter feito as coisas de maneira diferente, Miguel Sousa Tavares reitera que o governante “não devia” ter convidado o empreiteiro que fazia obras para a Polícia Judiciária para fazer obras em sua casa.
De resto, o atrelado, as sulipas e as obras na casa já existente, como sublinha o comentador, foram pontos “bem” explicados, sugerindo até que existe uma “inveja mesquinha” no que à história do tanque-piscina diz respeito.
Sousa Tavares ressalva que, no meio de toda a controvérsia, o que “é importante politicamente está de fora”. E questiona-se: “O que é que exigimos ao ministro da Administração Interna? Exigimos que não faça tanques, que afinal são piscinas, que não contrate o empreiteiro que trabalha para a PJ ou exigimos que acabe o caos nos aeroportos, que a polícia nos dê segurança, que não haja mais casos Odair e que os incêndios sejam coordenados? O que é que estamos a exigir aqui?”
“Se vamos vasculhar tudo”, alerta o comentador, “qualquer dia temos de arranjar um governo de frades franciscanos com voto de pobreza”.
Convencido de que todo o caso está a dar “muito jeito” ao Chega, que até já ameaçou o ministro com uma Comissão Parlamentar de Inquérito, Sousa Tavares avisa que uma vez aberta, será uma “caixa de pandora”, bem como um “ataque às instituições democráticas”, explicando que a investigação deverá debruçar-se sobre “tudo o que Luís Neves fez” durante oito anos à frente da Polícia Judiciária e aqueles que o nomearam.
Aquilo que, por outro lado, merecia realmente uma CPI, na análise do comentador, era o assalto à sede do Chega, que, a confirmar-se, seria “de facto inacreditável”. Uma alternativa “mais grave ainda” era “não ter acontecido e ser encenado”. De acordo com as alegações de André Ventura, o assalto poderá estar relacionado com o caso Luís Neves, e sobre isso Sousa Tavares tem “duas teses”: “Ou André Ventura tem razão quando diz que tinha uns documentos essenciais para a CPI e, depois de dizer que os tinha, foi roubado, ou então nunca os teve e o roubo dá-lhe imenso jeito.”
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